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Anestésicos][Sumários

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July 26

roxie

Gargalhadas e saxofones
 
[Um jazz::|||||||||||||||||||||||||\
que nada celebre
 
uápenblubá
uápem blu.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
July 11

10watts

seguro,entre as mãos
coração de chumbo
escuro. Procuro
entresombras
coração de fosso
luzidio.
 
 
 
July 02

JAzz nº11

A poesia não está írrita. esconde-se naquilo de fosso, 

troço retalhado no corpo. tecido anatômico.

de pano: mamulengo

pro vário que sou.

desvario que hei

de-ser-devir. linha embriagada

que há de prover boca

ressacas. contínuo invento

da saliva apalavrada

entalada no céu

de Estela

que estala

naquilo de fosso

o contínuo invento

que há de prover boca

ressacas. embriagada linha

de-ser-devir. do que sou vário:

desvario de pano. costura

e retalho.

June 21

O Baú de Lé

Entro e fustigo os espaços.
Não, não há mais volta.
Todos estão mortos:
 
os de lá que imensos
agora mínimos.
 
os de lá que tão sãos
agora matam-se.
 
Baudelaire gargalha
minha cara carcomida.
 
Tudo está morto
e eu no meio de tudo
e o meio é um vácuo
 
and god is a sucker!
June 10

Trânsito.

O nome não importa à boca que beija a noite redescoberta, a música transitória, corpos transitórios, alcoólica medida da noite. O que cai é poeira de ontem. Adormeço a manhã, o dia claro, o trabalho dos prédios e das letras: o nome não importa à boca que bebe. Interrogo olhares na penumbra, o zíper: dedos entrecortam-se escuros, boca mede a carne dos lábios, transitam na umidade, a sede, o mundo expande-se no canto que desata, da boca entreaberta. O dia amanhece para quem dorme, ensaia fragrâncias, e a noite despede-se de quem sonha, pêlos trançados. O nome não importa à boca e a boca não esquece o canto da língua, o toque dos dentes, a noite redescoberta. O que fica é  música.

O que fica é música.

May 23

||outro sonho feliz de cidade[...]

Os prédios fincados ao corpo, frio e movimento ininterruptos, o amor cresce sob outro prisma: todos juntos compondo nosso próprio museu, uma parte mapeada na memória de quem ama e pretende a lembrança. Esperamos os sinais darem passagem e a passagem dar sinal para um outro começo, enquanto uma outra música começa entre as esquinas e avenidas incansáveis. O hotel permanece acolhendo nossos corpos, que esperam pelo dia seguinte, que seguirão dentro do vôo perdido, nas asas da panair, nos bancos flutuantes. Mais um porto para se festejar o resto do ano, mais um resto de ano para amores diversos: amigos sorriem e se aquecem dentro do sono do outro, as bocas permitem-se sabores diversos e diversas são as nossas formas de afeto. As afecções não adentram em nossos lençóis e os sonhos permitem que sejamos mais: uma orquídea num jardim urbano, uma torre iluminada de música. Da janela prevemos a próxima estação e dela nos jogamos como quem descobrisse asas submersas. 6 corpos se amando mutuamente no silêncio impossível da cidade. 6 corpos que se reconhecem no silêncio obtuso do descobrimento de um outro caminho. O museu de nossos parques e palcos sustentado no meio do peito de cada um, no coração, fotografias ilustrativas, sonoridades aquecendo o frio da serra: arquitetamos nossa própria cidade entre os dedos que se enlaçam. Os 6 corpos acreditando em tudo aquilo que vibra, em tudo aquilo que ama, enquanto angélicas e augustas descobrem o tempo dos semáforos e os passeios nos levam para o que ainda não sabemos. O que não temos a dizer, temos a cantar e assim seguimos, prédio após prédio, procurando o alimento que nos dê força para amar tudo aquilo que é bruto e sonoro, sabendo-se que amanhã talvez seja o dia da partida... ou da chegada.

May 08

Jazz nº3

A lua é um corpo de amor dilatado

E o amor é um buraco de lua

Há quem diga que o fim morre em si mesmo

Pro amor d´outra lua que nasce

Horas e horas e horas

Na palavra que sustenta o silêncio:

- O que diria aquele que nos consome?

 

O amor é um corpo de lua esquecido

Atrás dos outdoors de tua casa

Porque eu digo que o fim morre em si mesmo

Feito amor de lua minguante

E de horas e horas e horas

No silêncio que engole a palavra

- O que diria aquele que me alimenta?

April 25

[ Vert et Blanc ]

                                                                                                                                                                                                                                     

eu devia sempre trocar a água do aquário,

para eles nadarem em água limpa

C. Lispector.

 É tudo feito de morte, minha querida. Foi assim que perdi meu marido, depois meu filho. Hoje sou mulher só e gasto o resto de meus dias aqui, neste apartamento velho, fumando, limpando restos. Dias sim, escrevo; dias não, passo frente à TV. Há tempos não compro uma roupa, não tiro cutículas, não sei das futilidades da vida. 54 anos, gastando-me aqui, na janela, vigiando nuvens, pensando frutas, queimando cigarros.  Mas olha a minha cara, vê?! Consegue ler minha tristeza? Digo de mim, de minhas outras tantas mortes. É tudo questão de morte. Fico muito feliz quando ganho flores. Olhe estas aqui, vê, são orquídeas; ainda não floresceram, esperam o tempo certo e depois que florescem, é tamanha felicidade que a sobra do ano é só secura e espera. Mas eu não espero nada, só que meus amigos continuem me trazendo flores e tomando café comigo, conversando, que continuem conversando. Sou mulher só e o que uma mulher só pode esperar? Sempre me perguntam o porquê, que ainda sou bonita, inteligente, agradável, que desperdiço tempo e vigor. Que tempo? Que vigor? Tenho o meu tempo aqui, percebe?!Também tenho vigor, escrevo tanto, limpo a casa. Tem dias que acordo tão vigorosa que pinto um quadro ou passo roupa. Na verdade, até quando eu era criança, atravessava ruas e ruas para não me bater com outras crianças, meu mundo sempre foi de muita solidão. Depois fui crescendo e, assim que perdi marido e filho, pretendi a morte nos prazeres da morte. Sou mulher só. O primeiro morreu, o segundo matei e, mesmo que seja relativo tal assassínio, ainda agora sinto um gosto ocre na boca. O marido morreu quando íamos à casa de sua irmã; chovia tanto naquela noite, tanta água turva, tanta vontade de voltar... Ele desceu do carro, lembro-me ainda hoje, vestia uma calça cinza e uma camisa pólo vermelha que eu mesmo dera. Abriu o guarda-chuva, intencionava pegar-nos do outro lado, eu e nosso filho, quando pisou numa poça d´água. Morreu eletrocutado em minha frente. Consegue imaginar, filha?! A cara de frente pra mim, contorcendo-se, empretecendo, cheirando a coisa sapecada. Havia tanta fumaça em sua boca: eu gritava, gritava louca dentro do carro, segurava nosso filho e temia, temia, chorava. Eu nada podia fazer. Nunca mais fui a mesma. Por isso que digo: é tudo questão de morte. Eu o amava tanto, aprendi tanta coisa com ele, coisa de cama e de vida, coisa de vida e de morte. Morri também, sabe?! Fiquei em estado de inanição, deitada aqui, neste mesmo chão da sala, imóvel, atônita semanas e semanas; me esqueci de comer, de beber, de cuidar do filho; e ele chorava tanto, pedia tanto, mas eu nem ouvia, nem lembrava, nem ligava. Estava morta, entende. Até que abriram a porta e foi tanta claridade, tanta poeira suspensa, que eu já nem me sabia mais. O filho, eu matei. Entraram na casa, vasculharam-na, enojaram-se com o cheiro. A criança lá, magra, cagada, o berço carcomido de náuseas e vermes. E eu aqui mesmo, deitada, calada, seca. Ainda hoje não sei como voltei, fiquei meses e meses em pura procrastinação. Levaram-me à casa de minha irmã, fiquei lá tempos, dopada, instigada por todos a encontrar a saúde. Todos iam me ver, mas eu não via ninguém. Ainda hoje ainda não consigo muito sair daqui de dentro, sabe, mas é essa minha saúde. Eu não merecia aquilo, filha. Eu era uma mulher boa, correta, temente a Deus. Minha família acha que eu enlouqueci, mas nada sabem de minha felicidade íntima, moram longe, pouco me entendem; sempre fui isso pra eles, essa coisa que perambula adivinhando catástrofes. Nunca souberam de meus florescimentos, do vivo de dentro, da seiva, do hiato. Mas olha a minha cara, consegue ler a vida daqui de dentro? Há tantas flores, né. Acho engraçado pensar isso de flores e estrelas. É tudo questão de morte, vê. A flor cortada demora a definhar, a estrela morta demora-se suspensa. Estou esperando meu tempo de florescimento e, enquanto isso, fico aqui na janela, vendo nuvens e nuvens, cabeças lá embaixo, pensando nestas questões de morte. Quer mais um café? Ah, tanta coisa em minha vida que você ainda não sabe, nem sei se deveria... coisas de mãe e pai, de outras  mortes que tomei pra mim. Separei-me da família, tive medo de amaldiçoá-los, vivo só com a pensão que me ficou legada, simples como qualquer velha, arrastando minhas chinelas, fazendo uma sopa à noite, velha e só, livre para pensar catástrofes e heresias porque nunca mais tive medo, nunca mais.

April 19

Febre terçã

e ora tudo se afasta, diminuem os prédios, passarelas, o mar, tua casa. Apenas as estrelas permanecem plenas. Vou morrendo a cada passo que dou pra dentro de nós, pro dia seguinte. O sono é interminável e, por ora, tudo se afasta: meu corpo do teu, o sono da noite. Vejo tudo apequenando-se e eu do tamanho de tudo. Vou pelos caminhos de tua ausência e atrás das mortes que ficaram írritas. Afasto-me de ti, assim como dos cigarros: tudo esvaziado de desejo e de cuidado, da saúde que só você me era. Retorno à máxima da noite, escurecido pela impossibilidade; vasculho entradas, interiores: afast0-me de nós e dos pŕedios e da barra da saia de tua mãe: talvez palavra ainda compre o dia de amanhã || "na velocidade terrível da queda**


**]OÂboL]
April 02

Orquestrações

Olhos que sabem ler dalvas, alfas e betas, estrelas... perguntam-se sobre o tempo de azul claro. Marejados vislumbram aves noturnas, dragões do céu, corujas enormes entre os murmúrios. Deito-me ao chão, céu levantado de lua, estendo as mãos medindo constelações. O céu movimenta-se, o pêndulo demarca o mar que cresce, a maré que bate na parede de vossas margens derruba o intento de navegação notívaga. Estrelas caem, caem e dentro de mim pedidos revelam a tônica essencial, o vibrato inoxidável: o cigarro separa os tempos. O vinho estéreo projeta nacos de nuvens femininas e voadoras, o céu ainda é claro azul de dia atento, ao longe barcos riscam o errante e as três marias choram a despedida do filho. O barco há de atravessar naufrágios, há de chegar cativo em encostas iluminadas e saudar rascunho-sereias com suas asas de peixe. Olhos que sabem ler estrelas percorrem no céu-mar órquideas de pedra, algas de seda, mundos inteiros submetidos à clara interpretação da existência. O céu não é mais o mesmo, as estrelas mudam suas mortes, a lua de cada morto propaga-se dentro da terra sovada de cal e cristo. Tempo ao tempo aviões chocam-se nas massas mortas de luz e os bardos são meros estrondos, dilatações inebriadas de gozo e cansaço no espaço cósmico. Um buraco-lua sedimentado à agua, aterrada pelas inversões da música, sugestiona os perfis dos nossos rostos contemplativos, o silêncio subentendido solavanca poemas anestesiados sob terraços enfurecidos, entre as cadeiras, dentro dos copos, o poema lunar e marítimo assovia, a um só tempo, dionisos; respostas aéreas, sentidos destrinchados, a esfinge espera o tempo em que nós poderemos simplesmente ser atrasos de luz num céu claro de azul mistério, de azul histérico: a noite responde assoviando o vento: "CURIMÃ Ê, CURIMÃ LAMBAIO".
 

ALEXANDRE COUTINHO

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